REVISTA T U R B O

 O DIRECTOR DA REVISTA ”TURBO” SOLICITOU-NOS UMA ENTREVISTA-REPORTAGEM , À QUAL ACEDEMOS COM MUITO GOSTO , EI-LA :

Caravanistas Globais – Entrevista Completa

Veja agora no site a versão alargada da entrevista que está publicada na edição deste mês da Revista Turbo e que nos foi concedida pelo casal Estrela, autores do blog estrelasnarotadaseda e viajantes globais a bordo da sua autocaravana.

30-03-2014 17:49:00

 

Fomos encontrar David e Marília Estrela, os autores do blog estrelasnarodadaseda.com e aventureiros globais a borda da sua autocaravana, na morada do casal na zona Oeste de Lisboa. No entanto, esta é apenas a morada em metade do ano, uma vez que durante a outra metade do tempo estão a explorar o mundo a bordo da sua casa ambulante. “Raramente a utilizamos menos de seis meses por ano”, indica David Estrela, com a “ela” a ser a “Estrelita”, simpática alcunha por que tratam a sua autocaravana.

 

Ao entrar na propriedade da família Estrela surge-nos logo à vista o motivo da nossa entrevista, a autocaravana em que exploram o mundo e que tem na lateral inscrita a frase “Isto não é uma caravana, é uma forma de vida”, frase que explica a forma intensa e apaixonante como falam desta nova vida que descobriram após a reforma. O objetivo aquando da aquisição da primeira autocaravana (a Estrelinha, que entretanto foi substituída pela Estrelita) foi “ir a sítios longe, para os quais uma viagem de avião e uma estadia ficam bastante caras, e não seriam tão proveitosas nem dariam tão facilmente para conhecer as pessoas, os costumes, os templos, as comidas. A querer lá estar um ou dois meses, a conta seria astronómica. De autocaravana temos a possibilidade de fazer isso muito mais economicamente, e misturado com o espírito de aventura de que gostamos”.

 

São várias as vantagens que David e Marília Estrela encontram nesta forma de conhecer o mundo, que consideram muito mais completa do que os “normais” pacotes de viagens oferecidos pelas agências de viagem, como explicam, indicando que lhes permite conhecer de uma maneira muito mais exaustiva os locais por onde passam. “Permite conhecer as pessoas de outra forma, o seu modo de vida, e permite “entrar mais no país” sem ser tão turista como aquele que aterra no aeroporto, que vai a A, B ou C lugares. Isso realmente com a autocaravana permite-nos fazer isso tudo com bastante tempo, com a lentidão com que queremos e com a vantagem de se chegarmos a um local e não gostarmos, arrancamos no dia seguinte. Goste ou não goste, tem de ficar até acabar o tempo. Nós não, vamos de um local para outro e não gostamos, é francamente contrário às nossas expectativas, é diferente de tudo o que pensávamos, fomos mal recebidos, vamos para outro local. É a grande vantagem.”

 

A exaustiva lista de países que esta dupla de Descobridores (à imagem dos antigos navegadores portugueses) já explorou inclui mais de 110 países, espalhados pela Europa e Ásia, com duas grandes expedições organizadas, a primeira delas à Ásia Central e a segunda uma travessia de Portugal ao Japão como forma de homenagear os 470 anos da chegada dos marinheiros lusos a este território pela primeira vez.

 

“Começámos por Marrocos, um bocado da Europa, que já conhecíamos, e depois veio a ideia de “Porque não ir à Ásia Central?”. Ninguém se lembra de ir até à Ásia Central, e são países, não é que ninguém se lembre, relativamente desconhecidos, principalmente para os portugueses, a esmagadora maioria dos portugueses. Não sabem onde ficam o Uzbequistão, o Tadjiquistão, o Cazaquistão, etc. E depois não são países de fácil acesso, são países difíceis e, afinal, até são maravilhas. São lugares extremamente interessantes.”.

Esta foi a viagem mais complicada em termos logísticos, explicaram os dois, devido à falta de abertura para o exterior de muitas destas antigas repúblicas soviéticas. “Depende essencialmente se os países que vamos visitar são mais ou menos recetivos ao turismo. Repare que de todos estes países (da Ásia Central) nenhum tem representação diplomática no nosso país, logisticamente não é fácil. Se forem países virados para o turismo ocidental, torna-se tudo mais fácil, como é o caso desta última viagem no ano passado até ao Japão. Ligámos Portugal ao Japão por via terrestre com exceção de dois ferries. Atravessámos a Europa, a Rússia, a Coreia do Sul e o Japão, tudo países minimamente virados ao turismo. Tudo depende, portanto, da qualidade/abertura dos países que vamos atravessar.”

 

Como sempre nestas grandes viagens, a preparação logística e a investigação sobre os locais a visitar é também uma das tarefas mais demoradas, uma vez que “a preparação não é só carregar a autocaravana e vamos embora. Para esta viagem (travessia pan-americana que está a ser pensada), e a preparação ainda nem vai a meio, já tenho para cima de 700 fotocópias tiradas. Quase um palmo de fotocópias tiradas, e apontamentos. É preciso uma procura exaustiva através de sites ou de livros, vários meios, para definir itinerários, estadias, chegar à conclusão como se obtém determinado visto…”

 

Pensada para este ano, a travessia do Sul ao Norte do continente americano, entre a Patagónia na Argentina e Anchorage no Alasca, Estados Unidos, foi adiada por esse mesmo motivo, uma vez que a preparação é sempre complicada, especialmente num percurso tão longo. “Seriam cerca de 90.00km ou 100.000km. Seria a maior viagem de todas. As que temos feito andam em volta dos 25.000 ou 30.000km. Seria quatro vezes mais, mas também iam ser praticamente dois anos”.

 

Com a necessidade de transportar a autocaravana para outro continente ficámos a conhecer a maior contrariedade que existe para um viajante global que use este meio de transporte. “Os transportes marítimos são verdadeiramente o grande óbice, pois é onde vai a maior parte do dinheiro. É caríssimo, porque este tipo de veículo, logo à partida, não cabe num contentor. Tem que ser um transporte especial”. Transporte esse cujo preço irá depois depender das dimensões do veículo, como explica David Estrela. “Obviamente, quanto maior for o veículo, mais caro é. As contas são feitas pela cubicagem, e foi uma das razões porque trocámos de autocaravana. A outra tinha cerca de 55 metros cúbicos, esta tem 42 metros cúbicos. Isso representa muito dinheiro”.

 

Este downsizing da autocaravana não teve, no entanto, grandes repercussões na forma como se organizam em viagem ou na quantidade de materiais que podem transportar, como explica a dupla de exploradores. “ (A diferença) não é abissal, aí é que está. Enquanto a outra tinha uma cama à frente e em cima e outra atrás, é um tipo de autocaravana que se chama Capucine, esta não tem à frente. Não é preciso uma autocaravana enormíssima para ter todo o conforto a bordo”.

Passando para dentro da autocaravana, o casal Estrela apresenta-nos a sua casa durante metade do ano, explicando que têm todas as comodidades que também se encontram hoje em dia dentro de uma habitação normal. “Tudo o que temos em casa, também temos na autocaravana. É tudo mini, mas não deixa de ser tudo funcional e completo. Temos o frigorífico, o congelador, forno, fogão com três bicos, lava-loiças, casa de banho, chuveiro, sanita, tudo. Tem um roupeiro, armário, exaustor, televisão (escondida num compartimento que se puxa) … e ficamos aqui com uma salinha. Os bancos da frente viram-se e ficamos aqui com uma sala-de-estar. Temos tudo.”

 

Painéis solares garantem energia sempre disponível para os dois ocupantes da Estrelita, para quem a grande preocupação na preparação da autocaravana teve a ver com a autonomia em viagem. No que se refere ao combustível há “autonomia em termos de gasóleo de cerca de 1000kms, portanto é impensável ficar sem combustível. Do muito que conheço do mundo, não há nenhuma distância maior que 500km sem abastecimento.” No entanto, a precaução é a maior segurança, pelo que os dois viajantes têm sempre em atenção a questão do gasóleo. “Quando está a meio, pouco menos, enche-se automaticamente. Em certos países não se pode arriscar que daqui a 10 ou 20 ou 50km vai haver uma estação de serviço, às vezes nem a 150km…”

 

Mesmo que a autocaravana decida imobilizar-se, a alimentação e água não vão ser um problema para os dois ocupantes. “Sim, eletricidade normalmente temos e comida temos sempre autonomia para pelo menos três ou quatro semanas, no mínimo. Temos sempre 30 a 50 litros de água potável para beber, depende da zona onde estamos, nunca bebemos da água do chuveiro, etc. E água para chuveiro e lavagem de loiça, temos sempre na ordem dos 100 ou 120l.”. Portanto, falta de comida, água ou combustível não assusta a dupla de aventureiros.

 

Por outro lado, as complicações mecânicas são uma das maiores preocupações, razão dos principais sustos que David e Marília Estrela já tiveram durante as suas odisseias. A maior delas foi, como os dois confirmaram, um pedal de acelerador partido numa aldeia no meio do Quirguistão. “Nem era bem uma aldeia, era um aglomerado de casa, não havia mais nada. A cidade mais próxima era a 300 ou 400 quilómetros. E estamos a falar de países subdesenvolvidos, não estamos a falar de países que você pega num telefone, até porque muitas vezes nem funcionam, e pede um reboque”.

 

Portanto, uma situação dramática e que teria ditado provavelmente o fim da aventura pela Ásia Central caso não tivessem encontrado o “Macgyver” do Quirguistão. “Toda a gente pensa, e erradamente, que um pedal é feito de ferro, mas muitos são de plástico. E este é de plástico. Quem é que pensa que um pedal se parte? Então para isso levava um motor, um camião inteiro de peças atrás com outra autocaravana. É preciso sorte também. Foi uma sorte o indivíduo ser habilidoso de mãos e fez-me um conserto que ainda ali tenho guardado. Fez-me um conserto do pedal de plástico com parafusos, colas e talas e aquilo funcionou. Funcionou mais 10.000 ou 15.000 quilómetros até chegarmos cá. Passámos o Quirguistão, o Uzbequistão, a Rússia, a Ucrânia, em estradas horrorosas e chegámos cá. Funcionou. Foi um verdadeiro milagre.

Outra situação complicada foi vivida na Ucrânia, onde a passagem por “um dos muitos buracos, que cabia um carro lá dentro” foi mais difícil que o previsto e fez com que a autocaravana ficasse totalmente imobilizada. “A caravana estava morta, simplesmente morta, e eu não sabia o que tinha acontecido. Dava à chave e os sinais piscavam… vimo-nos realmente aflitos e com as lágrimas nos olhos porque, falando português, estávamos no “cu de Judas”. A cidade mais próxima era a 600 quilómetros, é o tamanho de Portugal. É a mesma coisa que você ter um problema no Algarve e haver só um mecânico no Minho. Eu não sabia, a Fiat e muitos outros carros hoje em dia têm um dispositivo que quando há um choque corta a corrente para não haver um incêndio.” Por sorte tínhamos antena de telemóvel e ligámos para Portugal para a Fiat e, através de 500 chamadas, lá encontrei o eletricista e expliquei-lhe a situação. Ele disse que tinha o corte da corrente e que era preciso desmontar uma peça, depois encontrar uma borracha lá meio escondida e carregar num botãozinho muito pequenino que lá tinha e aquilo reativa todos os circuitos”. O que acabou por ocorrer e permitir à dupla de aventureiros prosseguir a sua viagem.  NOTA DOS INTERVENIENTES : ESTA SITUAÇÃO ACONTECEU NO CAZAQUISTÃO , E NÃO NA UCRÂNIA- – – – – – LAPSO DO AUTOR DO ARTIGO

 

Interessantes são os elogios que o casal Estrela deixa às estradas portuguesas, quando comparadas com outros países que já visitaram. “Em Portugal temos estradas fantásticas e ainda se queixam, não fazem a mínima ideia. Ainda há dias estávamos em Monsaraz e estava lá um autocaravanistas que se queixou das estradas no Alentejo”, confidenciou Marília. David completou a ideia comparando as estradas nacionais com algumas do Leste da Europa. “. Você chega a certas estradas, na Ucrânia por exemplo, em que você não faz a mínima ideia por onde deve passar. Para, e fica a pensar E agora por onde é que eu vou, o que é que eu faço? Não são buraquinhos, são buracos onde cabe um Fiat 500.” Outro exemplo são as estradas na vizinha Rússia: “E agora na Rússia, nesta última viagem, foram sete pneus à vida, as estradas são péssimas. Sete pneus, é dramático. A nossa pior estrada “picada” é melhor que a melhor autoestrada deles. Eles conseguem por um homem na lua, mas não sabem o que é uma estrada.”

 

Outras curiosas histórias, muitas delas relacionadas com a passagem de fronteiras de determinados países, podem ser encontradas no blog deste casal, o estrelasnarotadaseda.com , onde também estão várias fotos e histórias dos locais por onde passaram, conselhos para outros viajantes e peripécias vividas pela dupla. Partilhamos, por exemplo, uma das informações que recebemos do casal e que muita gente nem sequer imagina ” há muitos sítios onde o GPS não funciona. Na Ásia Central nada funciona. Por exemplo o GPS é proibido de usar no Irão.”

 

Pedimos também à dupla para nos indicar algumas dicas para quem queira agora adquirir uma autocaravana, com o primeiro conselho dos proprietários da Estrelita focado no tamanho do veículo. “Não é preciso uma autocaravana enormíssima para ter todo o conforto a bordo. Se, em primeiro lugar forem só duas pessoas, não deve escolher por várias razões um veículo muito grande, acima de 7 metros. Há dificuldade em manobrar, cada vez maior dificuldade em estacionar, se vai no futuro incluir um transporte marítimo de continente para continente, o valor do frete marítimo sobe dramaticamente”.

 

Em relação à condução, a família Estrela indica que é extremamente fácil após um período de habituação, algo que comprovam pelo facto de nenhum deles ter experiência anterior na condução deste tipo de veículos. “Não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Uma pessoa tem é que se habituar ao comprimento, para certas manobras é um bocadinho mais complicado”. Os pequenos toques existem sempre, especialmente nestas grandes viagens, com vários motivos para essa situação. “É das tais coisas que muitas vezes acontecem quando há stress envolvido, não estamos no nosso meio, estamos apreensivos porque desconfiamos deste ou daquele indivíduo, desta ou daquela situação e não estamos perfeitamente à vontade. Por vezes por notícias daqui, porque precisamos de comprar gasóleo ou comida, e portanto a condução não é 100% pacífica, de onde pode acontecer isto ou aquilo. É normal”.

 

Com ou sem toques, a autocaravana da família Estrela faz sucesso por onde quer que passe. “É quase uma comparação idiota, mas parece quase como se aterrasse um ET no Terreiro do Paço. Na Rússia, encontrámos em Irkutsk um grupo de jovens franceses, espanhóis, um chileno, um da Argentina, estava isto tudo cheio. E lá se fez um jantarinho”.

 

Espírito de aventura e vontade de explorar o mundo são os motes para este casal que já viajou por mais de metade dos países do mundo a bordo da sua autocaravana. Para “segundas núpcias” ficou a travessia do continente americano em toda a sua extensão, que irá adicionar ao “passaporte” da Estrelita mais um conjunto de carimbos. Liberdade é a palavra-chave em torno destas viagens em que apenas a data de partida é conhecida. “Encurta aqui, aumenta acolá, a vantagem é que não temos um prazo específico para regressar. Tanto faz regressar em Agosto como em Outubro, é a vantagem”.

 

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10 comentários para “REVISTA T U R B O”

  1. João Firmino/CAB diz:

    Olá, David e Marília!

    Acabo de ler a vossa entrevista. Parabéns!É mais uma divulgação a favor do autocaravanismo. Depois de a ler, alguns leitores da Turbo já devem estar a fazer contas à vida e a pensar mudar de viatura…mas desta vez para uma autocaravana!

    Mais uma vez parabéns e avante com os preparativos para a próxima aventura!

    João Firmino/CAB

    • admin diz:

      olá joão firmino !
      obrigado pelas suas amáveis palavras.
      esperamos que , uma vez mais , nos acompanhe na próxima viagem
      um abraço
      david+marilia

  2. Caros amigos
    Adorei esta v/ entrevista à «Turbo», porque ela dá uma feliz imagem do autocaravanismo. Parabéns.
    Abraço do
    Carlos da Gama

    • admin diz:

      olá carlos da gama !
      obrigado por comentar.
      aguardamos mais comentários seus ( a qualidade do seu português é muito alta…) durante a nossa próxima viagem
      um abraço
      david+marilia

  3. estrela diz:

    Só agora reparei que o meu comentário a este tópico desapareceu…Que aconteceu?

  4. Carlito Franzoi diz:

    Olá, David e Marília!

    Como também tenho motorhome no Brasil, vez ou outra visito seu blog!
    Parabéns, o blog é ótimo! Muitas informações importantes para futuros viajantes.
    Quanto ao projeto de fazerem Ushuaia até o Alasca, dou o maior incentivo.
    Aproveito para deixar aqui, um convite para visitar o Brasil. Posso afirmar com experiência própria, que na grande maioria do país é tranquilo para se viajar.
    Recebemos aqui nesta semana uma família da França, casal com dois filhos, que estão terminando uma viagem de dois anos, dos Estados Unidos à Ushuaia. Eles tem muitas informações que poderão lhes ser úteis. Segue o site deles: http://www.ensemble-autrement-au-bout-du-monde.com/
    Grande abraço e sejam bem vindos!

    • admin diz:

      olá companheiro !
      obrigado por visitar o nosso site e pelas amáveis palavras.
      conheço igualmente muitos sites (principalmente franceses ) de viajantes que percorrem o continente americano durante um par de anos.
      neste momento e por várias razões, este nosso plano alaska-ushuaia está suspenso , vamos percorrendo algumas rotas da europa menos conhecidas…
      um abraço e boas viagens para vocês
      david+marilia

  5. Georgios Synanidis diz:

    Hello David & Marilia,
    your conference in Turbo is very interesting. Although we have discussed a lot about your travel experiences, I think there are many more. Of course it is extremelly difficult to prepare and execute a travel the way you do , I always wonder if the wish to live those experiences is strong enough to face all these odds. In your case it is absolutely certain. We all provide to you our motivation to continue and promise to follow you mentaly.
    Take care,
    George & Aphrodite

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